Meses antes da Revolução que pôs termo à ditadura em Portugal, a Faculdade de Direito de Lisboa estava a ferro e fogo (como muitas outras na Universidade, o Técnico, por exemplo): Greves, boicotes às aulas, polícia, identificação de estudantes, meetings feitos à pressa a incitar à greve geral contra os chumbos e o sistema de ensino, reuniões de alunos interrompidas pelas matracas dos gorilas, prisões e espancamentos de alunos.
Os primeiros dias na Faculdade para os caloiros – especialmente os que, como eu, jovens e despolitizados, vinham de um Liceu na pasmaceira da província – eram feitos de espantos e curiosidades irreprimíveis perante tal ambiente.
Junto à mata densa que, nessa época, rodeava a Cidade Universitária havia sempre várias carrinhas azul-escuro estacionadas. Era a polícia de choque. O poiso preferido deles era por detrás da Faculdade de Letras, meio escondidos entre o arvoredo. De longe avistávamos os polícias e o brilho metálico dos cassetetes presos à cintura. Passavam ali os dias à espera de serem chamados, ao mínimo sinal de agitação dos estudantes, e irem a correr para as faculdades bater e prender os alunos suspeitos ou revoltosos.
À entrada de Direito, no cimo da escadaria, entre os portões envidraçados, passeavam-se sempre alguns gorilas, polícias-vigilantes à paisana que guardavam as faculdades e pediam a identificação aos alunos. Mostrávamos o cartão sem os olhar. Era a nossa forma de protesto. De resto, o fanfarrão exibicionismo dos corpos avantajados, as mangas arregaçadas em pleno inverno, o riso sarcástico e um não sei quê de emporcalhado e torpe nas caras de todos eles, levavam-nos instintivamente a baixar os olhos, sempre que passávamos perto.
Os gorilas tinham sido colocados nas faculdades pela PIDE-DGS, a polícia política do Estado, para espiar e denunciar os estudantes contestatários e reprimir, à bastonada e ao pontapé, se necessário, as manifestações subversivas. E, de facto, era isso que acontecia.
Direito tinha sido transformada em quartel-general e as instalações associativas confiscadas aos estudantes e ocupadas. Sabia-se que os gorilas passavam os dias a emborcar cerveja, ouvir rádio e jogar às cartas em altos berros. Às salas de aula e anfiteatros, nos andares superiores, chegavam as risadas e os gritos estridentes que atiravam uns aos outros.
Gorilas!... Quem lhe tinha posto o nome fizera-o num momento de inspiração. Famoso era o King-Kong, notório pela descomunal largura de ombros. Tinha sido estrela de cinema, Tarzan num qualquer filme de terceira classe, e apreciava sobremaneira mulheres com pêlos nas pernas, confessara, em entrevista, numa revista de actualidades que circulara de mão em mão e de aula para aula, para divertimento dos estudantes.
Um dia, no início do ano lectivo, estava sentada num recanto a conversar com uma amiga. Acercou-se de nós um colega e disse-nos, muito rapidamente, quase a falar-nos ao ouvido: Amanhã não faltem à aula de Economia Política. É importante. Vamos boicotar a aula do Martinez.
Que iria acontecer?, interrogamo-nos, a olhar uma para a outra, o coração em sobressalto.
Não faltamos à aula, claro. Ainda por cima detestávamos o cínico do professor, Director da Faculdade, que chumbava mais de oitenta por cento dos alunos. Corriam histórias sobre as orais onde o Martinez fazia as mais disparatadas e absurdas perguntas aos alunos – em que ano foi criado o Instituto Nacional de Estatística, quem esteve no funeral de Hugo Grócio, onde estão os restos mortais de Francisco Suarez, qual o número exacto de bordadeiras da ilha da Madeira.... Os alunos exorcizavam os rancores ridicularizando o conteúdo do manual, da autoria do próprio Martinez, apontando a dedo algumas passagens “iluminadas”. Uma das mais gozadas analisava a quebra de natalidade na raça branca e concluía: “...Dir-se-ia que, cansado de civilização, esgotado por um esforço de aperfeiçoamento de alguns milénios, o homem branco se recusa a realizar a sua missão de perpetuar a própria espécie.”
“Ó pá, ainda por cima, um gajo bem pode marrar a porcaria do manual de uma ponta à outra, pá, que o facho do Martinez, se lhe der na mona, trama-nos à mesma”, queixavam-se os colegas dos anos mais adiantados mas ainda com Economia, do primeiro ano, por fazer. Especialmente os rapazes, que andavam à rasca, a contabilizar os chumbos, as cadeiras em atraso, a perspectiva de lhes ser negado mais um adiamento militar e a ida para a tropa e para a guerra em África a aproximar-se em velocidade vertiginosa.
No dia do planeado boicote à aula de Economia Política, o anfiteatro estava cheio, a abarrotar. Até nos espaços laterais havia estudantes, de pé. O Professor Martinez entrou na sala, sentou-se à secretária, engravatado e superior, distante e solene. Levantou os olhos para o anfiteatro cheio em peso, fixou-os, austero, sobre a massa agitada dos estudantes e começou, devagar e com sílabas vincadas, a discursar sobre a matéria da aula.
Não demorou muito a fazer-se ouvir o som do matraquear de dedos nos tampos das carteiras. A princípio tudo se resumiu a batidas dispersas, subindo progressivamente, num crescendo ritmado que se sobrepôs à voz do professor.
Apanhado de surpresa, o catedrático levantou-se da cadeira e o barulho cessou por instantes breves.
“Abaixo a selecção burguesa”, atirou alguém no meio do anfiteatro. “Fascista”, acrescentou outra voz, aguda. “Nazi!...”, rosnavam os alunos.
De pé, as mãos hirtas sobre a secretária, o rosto congestionado, o professor fixava o anfiteatro. As palavras saíam-lhe apertadas: "Meus senhores..." Mas o matraquear de dedos recomeçou, mais intenso ainda, de mistura com o bater de sapatos no chão, e abafou-lhe a voz. Era uma sinfonia enraivecida. Os sons secos dos dedos que batiam alternavam com as vibrações pesadas dos pés que pateavam, de mistura com pancadas dispersas dadas por mãos abertas nos tampos das carteiras.
Os gorilas irromperam pelo anfiteatro de roldão, por ambas as portas, quatro e cinco de cada lado, e colocaram-se à frente da secretária do professor, em guarda, de pernas abertas, braços inchados, matracas nas mãos, a medirem os estudantes com os olhos. O catedrático, com um sorriso simuladamente calmo, disse qualquer coisa do género: “Os senhores que desejam assistir civilizadamente à aula façam favor de ficar. Os restantes, agradeço que se retirem. Eu espero... lá fora.”
Saiu vaiado por um coro de assobios agudos. Alguns gorilas subiram os primeiros degraus do anfiteatro, o peito tenso e as matracas a dançar, e muitos estudantes desataram a sair, empurrando-se uns aos outros. Um aluno pôs os braços no ar e pediu: "Colegas... vamos sair todos com calma." Um gorila fixou-o ameaçador e ele ripostou: "Estou só a pedir calma." Voltou-se para a turma, à direita e à esquerda e repetiu: "Colegas, vamos sair todos. Que não fique cá nenhum. Que não fique cá ninguém."
Não foi fácil atravessar a barreira compacta de estudantes que se amontoavam à porta do anfiteatro. Todos queriam sair mas todos queriam continuar a espreitar lá para dentro. Já estava do lado de fora quando se espalhou a notícia que os gorilas tinham desatado a bater e um estudante já estava ferido e a sangrar na cabeça com um golpe de matraca. Um grito tremendo irrompeu no burburinho agitado e ecoou pelos corredores da Faculdade: "Fim da guerra colonial. Independência às colónias".
Foi como uma onda avassaladora. Respondemos em coro, a uma só voz, em compasso repetido: "Fim da guerra colonial! Fim-da-gue-rra-co-lo-ni-al. Fim-da-gue-rra-co-lo-ni-al..."
A partir daí tudo ganhou velocidade. Os gorilas enraivecidos atirados aos estudantes, aos socos por tudo quanto era gente e sem olharem a quem. Gritos cruzados no ar, empurrões, encontrões, livros e cadernos espalhados pelo chão. Estudantes em fuga, cada um para seu lado, pelos corredores laterais, escadas abaixo e escadas acima, em direcção à saída ou ao refúgio das casas de banho, lá ao fundo. E um corpo compacto de polícias, fardados e com bastões, a entrar, em passo rápido e militar, pelo portão principal da Faculdade.
Nota: O Prof. Martinez foi saneado com o 25 de Abril. Alguns anos mais tarde voltou à Faculdade. Igual ao que sempre foi, ao que consta.
É mesmo verdade o Sr foi saneado e depois regressou... as cenas que se seguiram na decada de 90 não foram iguais à descrita mas, há sempre um mas, as orais continuaram com as perguntas do grocio e das bordadeiras.
Um dia a faculdade acordou com um abaixo assinado na porta sbscrito por dezenas de eis alunos, vitimas das mãos do facho, que exigiam a saida do Sr... foi um momento de glória!!!!
o prof. em causa foi meu prof. de economia politica no ano de 88/89 e aí terminava o seu império de terror :), pela 1ª vez, uma turma inteira do 1º ano fez greve a um teste q ele marcou arbitrariamente sem a antecedencia minima de 15 dias!
depois, salvo erro em 93, 94, não sei se foi no meu ano 93 ou se foi em 94, por causa da arbitrariedade das suas orais em filosofia política (q tive o maior prazer em nao fazer :D, porq não escolhi de propósito as opções onde estava incluída essa disciplina e esse inergumene :p), pela 1ª vez foi aplicado um artº do código do procedimento administrarivo a um professor de direito, q afasta todo e qq agente administrativo de um procedimento administratismo por haver uma grave inimizade para com esse órgao ou agente.
como já escrevi, o direito, os nossos direitos adquiridos, e a defesa deles, são as maiores conquistas do 25 de abril, o resto é treta, isso deveu-se obviamente à democracia.
parabéns mais uma vez Vitor.
Relato brilhante de épocas bem agitadas...
Só quem as viveu é que sabe, mas com este texto muita gente fica pelo menos a ter uma ideia do que se passou naqueles tempos.
Golfinho talvez não tenhas reparado, mas a autora do texto é a Ana (anamar_od@yahoo.co.uk), eu limitei-me a publicá-lo. Os teus parabéns são para ela.
Afixado por: vmar em abril 19, 2004 07:40 PMGolfinho talvez não tenhas reparado, mas a autora do texto é a Ana (anamar_od@yahoo.co.uk), eu limitei-me a publicá-lo. Os teus parabéns são para ela.
Afixado por: vmar em abril 19, 2004 07:41 PMParabéns para a ana...não estando na mesma faculdade, estava na da frente...mas lembra-me mt.bem do tal Martinez...e as notícias corriam célere...
Um abraço do Morfeu
A transcrição de atrocidades sofridas, tem sempre a sua oportunidade de fazer um mínimo de justiça.
Se da história não existissem registos, da revolução já nada existiria, a não ser esta, essa, essas, vontades indomáveis de proclamar a liberdade.
Infelizmente a revolução Abril que no essencial
cumpriu os objectivos dos seus promotores, não deixou no entanto de ter algumas falhas. Uma delas foi exactamente essa. A de não ajustar contas com os fasciszoides e não os ter responsabilizado por tudo quanto foi a sua conduta de propotência para com a sociedade.
Impressionante relato de uma realidade que só se resolveu com a revolução. E ainda há quem ache que não era bem assim, que coisa não era tão preta. São testemunhos assim que nos tiram dívidas que houvesse.
Afixado por: Pedro Lima em abril 19, 2004 11:10 PMMuito boa a descrição...
Não foi meu professor. Mas lembro-me que da 1ª vez que o vi: os estudantes abriam alas para que este energúmeno passasse...
Um abraço,
Francisco Nunes
Fantástica descrição!!!!
Afixado por: M. em abril 19, 2004 11:49 PMvmar, percebi-me q era ou a tua esposa ou uma familiar tua :)
parabéns pelos 21 anos do teu filho!!!
Afixado por: golfinho em abril 23, 2004 12:55 AMÉ verdade "golfinho" a Ana é a mãe do Luís e a minha mulher. Também assina como "anamar" como podes ver na zona temática do blog.
Afixado por: vmar em abril 23, 2004 09:18 PM